quinta-feira, 24 de abril de 2008

Território e Preconceito: um olhar sobre o Território de Convivência Homossexual da Farme de Amoedo

RESUMO ENVIADO PARA O XV ENCONTRO NACIONAL DE GEÓGRAFOS (Encontro da AGB): http://www.agb.org.br/eventos/?evento=2
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Por Rafael Chaves Vasconcelos Barreto
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Atualmente temas como diversidade, preconceito, respeito às diferenças têm sido muito tratados no dia a dia, na mídia e na Academia, abarcando temas como raça, gênero e diversidade sexual. Notamos que cada vez mais tem se buscado a valorização das diferenças, ressaltando a identidade de cada grupo e de cada indivíduo. Mas apesar dessa ser uma luta diária, e dos avanços, ainda existe muito que percorrer na luta contra o preconceito. Negros, mulheres e homossexuais ainda sofrem discriminação, mesmo com a existência de leis em favor das causas, além do apelo de instituições, da mídia e de várias ONGs (Organizações Não Governamentais) que lutam pelos direitos de igualdade entre os indivíduos. Trataremos mais especificamente da minoria compreendida pelos homossexuais, que sofre com a ausência de leis que combatam a discriminação, e que vem se mostrando cada vez mais visíveis, visto os resultados dos últimos balanços feitos nas Paradas de Orgulho GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), que além de aumentarem em número de participantes, tem multiplicado os locais aonde elas vêm ocorrendo. O ano de 2008 está sendo um ano marcado no Brasil por ser a primeira vez que o país realiza uma Conferência Nacional de Políticas Públicas para GLBT, onde serão discutidas propostas de políticas que visem a melhoria dessa parcela da população, que sofre com a ausência de políticas de combate ao preconceito e a discriminação, sendo obrigadas a viver em muitos casos de forma escondida a sua identidade, procurando refúgio nos territórios de convivência homossexual, locais que vem se multiplicando e se tornando cada vez mais visíveis, ao contrario dos antigos “guetos”, que são vistos de forma pejorativa, como locais muitas vezes entendidos como insalubres, onde o indivíduo ia em busca de sexo somente. Nesse sentido o presente artigo tratará da formação de um território de convivência homossexual, tomando como exemplo o território da Rua Farme de Amoedo e adjacências, em Ipanema, no município do Rio de Janeiro, mostrando como a identidade homossexual é expressa nesse território, através de símbolos vistos no espaço, estampados nos estabelecimentos considerados GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) ou “friendly” (receptivos a esse tipo de público) e através de seus indivíduos freqüentadores, procurando também analisar a relação desse território com o seu entorno, bem como os conflitos que envolvem muitas vezes os freqüentadores e como se da a relação de controle desse espaço. Nesse sentido vemos vários fatores que influenciam na existência desse tipo de território nesse local. Ipanema nesse sentido mais uma vez mostra seu perfil, como bairro de vanguarda, marcado por sua ousadia e lançamento de tendências, bairro que ficou marcado por acontecimentos como a aparição de Leila Diniz grávida de biquíni na praia, se tornando um ícone que mais tarde seria imitada por outras mulheres. Outra situação que marcou Ipanema foi a aparição de Fernando Gabeira na praia de Ipanema vestindo uma tanga de crochê e tomando limonada. Por fim destaco também o pioneirismo de um grupo de mulheres fazendo topless, rodeado de repórteres e curiosos. É nesse contexto que surge nas areias de Ipanema um espaço freqüentado predominantemente por homossexuais e simpatizantes a causa, um local onde o indivíduo pode exercer de forma mais livre a sua identidade homossexual, na presença de seus semelhantes podendo reconhecer no outro a sua identidade e compartilhar da mesma sem sofrer possíveis retaliações. Sabemos que ainda nos dias atuais, muitos homossexuais são obrigados a viver “no armário”, ou seja, sem poder assumir de forma plena a sua identidade homossexual, pois em determinados grupos esse tipo de identidade não é aceita, e até mesmo combatida gerando uma exclusão que aparentemente por vezes ocorre quando uma dessas identidades interfere com outros papéis que a pessoa representa. Por receio, insegurança ou para se preservar, uma pessoa pode ocultar, ou não revelar, uma identidade para poder exercer certos papéis sociais, ou para poder participar de um determinado grupo. Nisso influem razões que variam desde a cultura de dominação em relação a certas posturas até preconceitos explícitos, que não aceitam que uma pessoa com uma determinada identidade freqüente um grupo. Isso pode ser exemplificado pela difícil relação existente entre judeus e palestinos, pela postura dos anglo-saxões brancos protestantes norteamericanos (WASP – white anglo saxon protestant) em relação aos judeus, negros, orientais e indígenas. Ou, ainda na esfera do presente estudo, quando um filho não se assume gay com receio da reação de seus progenitores. Portanto, os indivíduos passam por experiências de fragmentação em suas relações pessoais e em seu trabalho, circulando por grupos de identidades diversas, expressando também alguns dos papéis sociais que exercem (WOODWARD, 2000 apud HALL,1997). Mas não podemos negar que tivemos muitos avanços, mesmo que tardios, como a retirada do homossexualismo da lista de doenças do Conselho Federal de Medicina e da determinação por parte do Conselho Federal de Psicologia que nenhum psicólogo poderia favorecer a patologização de comportamento e de práticas homoeróticas, resquícios de doutrinas eugenistas que resultou na morte de milhares de judeus, negros, e homossexuais inclusive. Com o passar do tempo pode-se verificar que cada vez mais tem aumentado o número de grupos que atuam em defesa da causa bem como sua forma atuação, sendo cada vez mais valorizados os discursos que falam em respeito às diferenças, a diversidade, promovido por esses mesmos movimentos sociais e políticos que defendem os interesses desses grupos que sofrem com o preconceito, atuando para que cada vez mais se diminua a discriminação e a intolerância, entre outros problemas sofridos por essas pessoas. A mídia também vem atuando no intuito de mostrar a realidade do homossexual, tornando-a próxima da realidade da população, contribuindo para a desmistificação do tema e para a quebra de preconceitos, o que vem se refletindo no cotidiano pois muitos ao andar na rua já se depararam com uma bandeira de listras coloridas, representando as cores do arco íris, ou mesmo teve contato com algum personagem homossexual em algum filme, novela, ou seriado. Basta ligar a televisão para ter um contato maior com personagens homossexuais, tanto em canais pagos, como em canais abertos, ou simplesmente andarmos atentamente pelas ruas que será possível perceber esses símbolos que marcam o que pode ser designado símbolos de uma cultura homossexual. Em razão da aparente importância e visibilidade que essa temática vem ganhando, propomos um estudo enfocando esse grupo, que possui uma identidade própria, com símbolos próprios de uma tribo, como dialeto e estilo característico, que são pré-requisitos para a formação de uma tribo, segundo Michel Maffesoli (1995), e que ao mesmo tempo delimitam e formam territórios, fato que será enfocado e discutido ao longo desse artigo, levando o leitor a refletir a questão do preconceito e do respeito às diferenças.
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