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Por Raoni Lucena Souza
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Define-se como indústria qualquer atividade capaz de transformar, conscientemente, matéria prima em produto. Sob esta perspectiva, a indústria surge ainda no início da história do homem com a produção artesanal das primeiras ferramentas. O desenvolvimento de tais ferramentas deu ao homem primitivo a capacidade de se adaptar a diferentes condições ambientais. Esta diversidade nas condições de vida e, conseqüentemente, nas necessidades do ser humano estimulou de maneira recíproca a produção de ferramentas diferenciadas. Deste modo, podemos dizer que o homem se espalhou por todo cato do globo graças ao desenvolvimento industrial.
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Conforme o desenvolvimento das sociedades humanas e o aumento de sua complexidade, o trabalho e, conseqüentemente, a indústria foram se tornando cada vez mais diversificados e complexos. A indústria artesanal esporádica foi sendo substituída pela indústria artesanal contínua; esta, por sua vez, foi dando lugar à indústria manufatureira; e esta, à indústria fabril.
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Até o século XIV, produção industrial era meramente esporádica. O modo de produção feudal, hegemônico até então, baseava-se basicamente na produção agrícola. A produção de bens mais elaborados, a partir da transformação propriamente dita da matéria prima, era rarefeita. Esta, quando não se dava para usufruto próprio, tinha seu destino, distribuição e preço avaliados pelo e em favor do próprio produtor, a exceção de demandas esporádicas, quase ocasionais, como por exemplo, um pedido de um senhor feudal. Ou seja, a indústria não obedecia a uma demanda contínua tampouco a uma lógica de produção.
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A partir deste século, com a crise da relação senhorial e do modo de produção feudal, há uma forte transferência de população do campo à cidade e um grande fortalecimento político e econômico da burguesia, impulsionado, entre outros fatores, pela acumulação de metais preciosos vindos do Novo Mundo e o confisco de terras da Igreja Católica através da Reforma. É a fase que chamamos de acumulação primitiva do capital, marcada pelo processo histórico de separação entre o produtor e os meios de produção.
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Neste período, destaca-se como modo de produção de bens industriais o trabalho domiciliar. Esta forma de trabalho rompe com o modo feudal de produção (servil) uma vez que estabelece uma relação salarial entre produtor e “contratante”, embora não gere ainda a proletarização dos trabalhadores artesãos. Este sistema de trabalho domiciliar funciona da seguinte maneira: o capitalista-mercador fornece ao trabalhador as matérias primas e apropria-se do seu produto em troca de um salário, restando ao produtor apenas o instrumento de produção e seu salário de subsistência. Assim, passa a haver uma demanda constante de bens industriais e, acima de tudo, uma regulação da produção.
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Para que, da acumulação primitiva do capital, se passasse para um modo de acumulação capitalista propriamente dito foi necessária a separação entre os trabalhadores e a propriedade das condições de realização do trabalho. Este processo começa a se efetivar de maneira plena a partir do século XVII, com a concentração dos meios de produção nas mãos dos mercadores a partir da expropriação dos pequenos produtores efetuada pelos mercadores em questão. O modo de produção capitalista insere um novo patamar nas relações de classes. Pela primeira vez, o homem é retirado de sua fonte de vida e lançado na condição de dependente do mercado como uma peça trocável. Há efetivamente a proletarização da massa de trabalhadores.
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A indústria manufatureira – esta sim já caracterizada pelo modo de acumulação capitalista, ou seja, o investimento da mais valia obtida sobre uma massa de trabalhadores-produtores proletarizados, expropriados dos meios de produção – baseia-se na produção em série e na divisão do trabalho para otimização do tempo. A organização capitalista da produção institui uma forma de trabalho (o trabalho operário) marcado fortemente pela sua abstração, o que permite uma maior especialização e diferenciação das tarefas produtivas em relação ao trabalho domiciliar.
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É importante atentar para o fato de que, desde a queda da hegemonia do poder feudal, o lócus do poder político e econômico tem sido a cidade. Esta passou a ser, com a queda do modo de produção feudal, a sede da classe dominante. Porém, durante muito tempo, a produção de bens industriais continuou a cargo do campo, embora esta produção fosse arrendada e orçada a favor do capitalista-mercador sediado na cidade. Então, a cidade desempenha a princípio um papel diferente (inferior) do que desempenha hoje. Ela é o centro do poder político e das trocas comerciais, mas não exerce (a princípio) o papel de produtora – é o capital comercial quem está na base das relações sociais. É preciso, entretanto, deixar claro que, mesmo consumindo os produtos industriais do campo, é a cidade quem exerce a hegemonia, subjugando o campo a uma posição hierarquicamente inferior na divisão do trabalho.
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Um evento de suma importância para o desenvolvimento da indústria foi o deslocamento da produção para a cidade. A partir daí, aparece, então, uma nova classe de produtores urbanos, que por estar na cidade, pode elevar a um novo patamar as forças produtivas (industriais), baseadas nas manufaturas – surge o capital produtivo, que em breve tomará o lugar do capital comercial na base das relações sociais. A cidade dá a esses produtores as condições estruturais de produção, distribuição e comercialização que o campo não é capaz de dar.
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A transformação da cidade em centro de produção (não só de exploração do campo) resulta de uma luta de classes entre exploradores e explorados, no curso da qual ambos os lados se redefinem, redefinindo o conjunto das relações (SIGER, 1978). Aparece, então, uma nova classe de produtores urbanos, que por estar na cidade, pode elevar a um novo patamar as forças produtivas (industriais), baseadas nas manufaturas – surge o capital produtivo, que em breve tomará o lugar do capital comercial na base das relações sociais. A cidade dá a esses produtores as condições estruturais de produção, distribuição e comercialização que o campo não é capaz de dar. E foi este assombroso aumento das forças produtivas, oriundo da urbanização da produção, que deu à indústria as condições necessárias para entrar em seu próximo estágio: a indústria fabril.
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É com a industria fabril ou indústria moderna que ocorre a alteração dos princípios mais primordiais da organização do espaço. Situando rapidamente, a indústria fabril se caracteriza pela introdução das máquinas no processo produtivo, reduzindo de maneira espantosa os custos unitários da produção de um produto (seja ele qual for) ampliando de forma igualmente espantosa a sua capacidade de produção. Ou seja, produz-se muito mais gastando-se muito menos por unidade. A implantação desta forma de indústria tem com marco a Revolução Industrial (século XVIII, Inglaterra).
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Em todas as formas de organização social, sempre há uma forma predominante de indústria acoplada. É assim no modo tribal de organização, foi assim no modo feudal de organização, etc. O que estes modos de organização sócio-espacial têm em comum no que tange sua relação com a indústria é o fato de que, em cada uma destas sociedades, é a sua forma de organização sócio-espacial que define as características de sua produção industrial.
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O que se altera a partir da Revolução Industrial, com a ascensão da indústria fabril ou moderna é que passa a haver uma inversão dos papeis anteriormente estabelecidos. Agora é a indústria fabril, poderosa, hegemônica e oligárquica, que (re)define a seu favor a forma das sociedades se organizarem espacialmente. Este processo de reorganização do espaço conforme as regras e normas da indústria é um processo de tendências globais, tendo em vista que a Revolução Industrial – inicialmente dada na Inglaterra, século XVIII – se generaliza nos séculos seguintes atingindo, de maneira desigual, virtualmente todo o globo.
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